segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Um pouquinho de Maiakóvski



Hino ao crítico

Da paixão de um cocheiro e de uma lavadeira
Tagarela, nasceu um rebento raquítico.
Filho não é bagulho, não se atira na lixeira.
A mãe chorou e o batizou: crítico.

O pai, recordando sua progenitura,
Vivia a contestar os maternais direitos.
Com tais boas maneiras e tal compostura
Defendia o menino do pendor à sarjeta.

Assim como o vigia cantava a cozinheira,
A mãe cantava, a lavar calça e calção.
Dela o garoto herdou o cheiro de sujeira
E a arte de penetrar fácil e sem sabão.

Quando cresceu, do tamanho de um bastão,
Sardas na cara como um prato de cogumelos,
Lançaram-no, com um leve golpe de joelho,
À rua, para tornar-se um cidadão.

Será preciso muito para ele sair da fralda?
Um pedaço de pano, calças e um embornal.
Com o nariz grácil como um vintém por lauda
Ele cheirou o céu afável do jornal.

E em certa propriedade um certo magnata
Ouviu uma batida suavíssima na aldrava,
E logo o crítico, da teta das palavras
Ordenhou as calças, o pão e uma gravata.

Já vestido e calçado, é fácil fazer pouco
Dos jogos rebuscados dos jovens que pesquisam,
E pensar: quanto a estes, ao menos, é preciso
Mordiscar-lhes de leve os tornozelos loucos.

Mas se se infiltra na rede jornalística
Algo sobre a grandeza de Puchkin ou Dante,
Parece que apodrece ante a nossa vista
Um enorme lacaio, balofo e bajulante.

Quando, por fim, no jubileu do centenário,
Acordares em meio ao fumo funerário,
Verás brilhar na cigarreira-souvenir o
Seu nome em caixa alta, mais alvo do que um lírio.

Escritores, há muitos. Juntem um milhar.
E ergamos em Nice um asilo para os críticos.
Vocês pensam que é mole viver a enxaguar
A nossa roupa branca nos artigos?


Vladimir Maiakóvski

*Vladimir Maiakóvski é o maior poeta russo moderno, aquele que mais completamente expressou, nas décadas em torno da Revolução de Outubro, os novos e contraditórios conteúdos do tempo e as novas formas que estes demandavam.
Maiakóvski deixa descortinar em sua poesia um roteiro coerente, dos primeiros poemas, nitidamente de pesquisa, aos últimos, de largo hausto, mas sempre marcados pela invenção. "Sem forma revolucionária não há arte revolucionária", era o seu lema, e nesse sentido Maiakóvski é um dos raros   poetas que conseguiram realizar poesia participante sem abdicar do espírito criativo.

5 comentários:

Aníssima Duarte* disse...

Um dos meus poetas prediletos! Pela força que tem as suas palavras e mais, pela pessoa que foi, ele não só usou as palavras, ele foi além do seu reino, ele foi a luta, VIVEU!

Weslley M. Almeida disse...

Acabei de ler Maiakóviski esta semana. :]
E volterei p/ ruminá-lo em breve. Vida intensa dedicada à revolução e à poesia.
Quero deixar uns versos dele aqui...
"Se as estrelas se acendem/é porque alguém precisa delas(...)"
Poema "Estrela"

Abraço, Querida!

normando disse...

Grande Bolchevique...

C@urosa disse...

"A Amizade não requer gratidão,
presentes, cobranças, etc.
A Amizade requer apenas que nos
lembremos sempre de dizer um
“oi, Como você está?!!!
Você não imagina o quanto a sua
amizade é importante para mim....
Obrigado por você existir !!!
Não importa se você é real ou virtual,
o importante é que você existe
para me dar o prazer da sua amizade.
Amizade como a sua
é privilégio de poucos."

forte abraço

C@urosa

Dekinho Matos disse...

Maravilha! É isso aí...
A arte cutuca a vida e ela se melindra em risos; quando não, em prantos verdadeiramente puros e emocionais.
Parabens p/ boa idéia!
Gde abraço.